Para um time de engenharia funcionar com alto desempenho, é fundamental contratar, desenvolver pessoas e gerir as suas carreiras de maneira estruturada. Pessoas certas, alocadas a projetos que as motivem e que se alinham às suas habilidades, geram mais valor à organização, e facilitam muito o trabalho do líder de engenharia. O problema é que não é fácil criar e manter um time de pessoas excepcionais.
A presença de profissionais inspiradores e inspirados em uma equipe tem um impacto positivo desproporcional em relação a outras variáveis, como número absoluto de profissionais ou investimento em equipamento. Uma pessoa dessas pode ter e implementar uma ideia brilhante e inovadora que revolucione o negócio, traga enormes economias, dê origem a um novo serviço ou até a um novo ramo de atividade. São eventos raros, mas que acontecem, e toda instituição precisa abrir espaço para que oportunidades desse tipo surjam em seu interior.
Pessoas inspiradoras também funcionam como modelos aspiracionais que ajudam a estabelecer a cultura da empresa. No papel de mentoras, trabalham para formar novas lideranças dentro da própria equipe, e agem como ímãs, pois tendem a atrair outros bons funcionários, seja porque são seguidas para onde quer que se movimentem, seja porque têm bons critérios para selecionar futuras contratações.
A presença de profissionais inspiradores e inspirados em uma equipe tem um impacto positivo desproporcional em relação a outras variáveis, como número absoluto de profissionais ou investimento em equipamento.
Talentos precisam de liberdade de criação

Quando, em 1952, o pintor Candido Portinari recebeu do governo brasileiro a incumbência de pintar os painéis “Guerra e Paz” que seriam dados de presente à Organização das Nações Unidas (ONU) para ser expostos na sede da Assembleia Geral da entidade, em Nova York, ninguém disse para ele: “Pinte ali de vermelho e aqui de preto etc.” Ele era o artista, e quem encomendou a obra confiava em seu talento.
Para que profissionais de engenharia exerçam sua arte de forma igualmente criativa, precisam de liberdade e de condições. Não basta contratar pessoas boas se elas não tiverem certo nível de independência. Quando profissionais estão motivados e em sintonia com a missão da empresa, tudo flui naturalmente.
É papel do líder de tecnologia fazer com que esse ciclo de talento e execução aconteça – o que exige esforço e, mais do que tudo, dinheiro. Vale a pena investir o máximo que a companhia conseguir em pessoas do mais alto nível profissional.
Um profissional 10X economiza recursos
Em engenharia existe a ideia do profissional tão eficiente que acaba fazendo o equivalente ao trabalho de dez. Quando isso realmente ocorre, aquela aquisição, mesmo que cara, leva a uma economia. E o efeito continua se replicando, porque funcionários supereficientes contratam outros funcionários supereficientes (enquanto colaboradores medíocres trazem colaboradores medíocres).
Muitas startups já começam com supertalentos entre seus fundadores, e não é tão comum conseguir gerar uma pessoa desse tipo dentro da própria empresa. Por esse motivo, a briga por talento em pólos de inovação como o Vale do Silício, por exemplo, é descomunal. Todo mundo busca as pessoas de destaque, aquelas com realizações no histórico, porque essas já foram testadas e aprovadas e continuarão tendo impacto multiplicador na organização que conseguir arrematá-las.
Efeito multiplicador
No livro Multiplicadores: Como os bons líderes valorizam você (Rocco, 2012), Liz Wiseman e Georg McKeowan detalham algumas características de líderes que:
- Dão liberdade para os processos criativos nascerem espontaneamente
- Deixam os profissionais aprenderem com seus erros
Líderes assim mantêm-se próximos dos subordinados apenas para evitar situações que possam degringolar para desastres, sem ficar intervindo a cada etapa.
Pessoas multiplicadoras enxergam através da ótica da organização e costumam ter um pensamento colaborativo, sem agir de forma exclusivista: elas envolvem outras áreas, pensam na eficiência de criar um modelo sustentável e trazem novos talentos. Acabam extraindo o melhor dos colaboradores que estão sob sua influência.
São o oposto dos chamados “diminuidores”, que se caracterizam pelo microgerenciamento, pelo foco em controle e pela autopromoção. O mercado da tecnologia tem muita gente individualista, que se acostumou a ser tratada como a pessoa mais esperta nos ambientes que frequentou ao longo da formação e se transformou depois em um profissional centralizador e controlador.
Todos nós podemos atuar tanto como diminuidores ou multiplicadores, dependendo da situação e da fase da carreira. O exercício diário é entender quando estamos atuando de uma maneira ou de outra, os motivos do nosso comportamento e o que podemos fazer para alterarmos o rumo e sermos mais efetivos.
O mercado da tecnologia tem muita gente individualista, que se acostumou a ser tratada como a pessoa mais esperta nos ambientes que frequentou ao longo da formação e se transformou depois em um profissional centralizador e controlador.
Marcus Fontoura
Marcus Fontoura é atualmente technical fellow na Microsoft e CTO do Azure Core. Iniciou a carreira na área de pesquisa da IBM em 2000, depois de concluir o doutorado na PUC-Rio e o pós-doutorado na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Teve passagens pelo Yahoo! e pelo Google, e promoveu uma transformação digital na fintech brasileira StoneCo, onde atuou como CTO. É autor do livro Tecnologia Intencional e publisher da plataforma com o mesmo nome.